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Olinda :: Blog

Janeiro 06, 2008

http://sol.sapo.pt/blogs/postiteduc/archive/2008/01/06/UM-

    

Pela persistente oportunidade de que se reveste este desabafo/depoimento publica-se o texto de uma carta enviada à Ministra da Educação, a propósito do clima de indisciplina que graça nas nossas escolas.

Claro que as “soluções” que o ME parece ter no bolso para este problema são um Estatuto do Aluno recauchutado e um novo modelo de gestão das escolas, assente na figura do director/reitor que já está em discussão pública e que abordaremos em próximo post.

Estaremos condenados a assistir ao insucesso da própria ESCOLA?

---

   

Senhora Ministra,

  

Sou a Fátima e sou Professora.

Não, o P maiúsculo não é engano; é mesmo assim.

Tenho 57 anos, 30 dos quais dedicados a ensinar adolescentes. (sou  Professora do 3º ciclo).

Duas das características da minha personalidade são precisamente ser disciplinada e disciplinadora.

NÃO AGUENTO MAIS!

A humilhação que alguém da minha idade sofre hoje em dia perante turmas de jovens mal educados e mal formados não tem medida.

Nunca como nos últimos 3/4 anos, eu senti na pele o que é remar contra a maré tentando não só transmitir conhecimentos quer de Inglês quer sobre a vida.

A sociedade está doente, a família está doente, o governo está doente. Todos têm estado doentes e sem cura à vista.

A senhora ministra  já algum dia se confrontou com alunos (9º ano, fora da escolaridade obrigatória) dentro de uma sala de aula a soltarem gases e a atirarem-lhe bolinhas de papel enquanto está a escrever no quadro?

A senhora ministra já porventura sentiu a frustração de entrar numa sala de aula e haver num grupo de 26 alunos apenas 4 que a respeitam e que apreciam o seu trabalho?

A senhora ministra já sentiu o que é passar 26 horas semanais na escola, sem um gabinete onde possa trabalhar, gastando tempo precioso, ociosamente, porque não há isolamento possível para efectuar tarefas de responsabilidade?

A senhora ministra já alguma vez fez uma aula de substituição a uma turma de 5º ano em que mal entra, um aluno de 10 anos lhe diz: “Vai-te f……?”

A senhora ministra não dá instruções claras no sentido de estas situações não acontecerem?

Alguém no seu ministério a vai ofender quando se encontra no seu gabinete a trabalhar?

Sabe, senhora ministra, a Fátima de 57 anos de idade, professora de Inglês há 30, hoje levantou-se às 5,30 h da madrugada para ter o comportamento que sempre teve ao longo de anos de ensino: entregar aos seus alunos o teste que fizeram há menos de uma semana.

Fi-lo com gosto, mas revoltei-me com a falta de sensibilidade que a sua equipa revela relativamente aos professores que estão na faixa etária dos 50/60 anos.

A Escola, enquanto instituição, não respeita os Professores nem o seu trabalho, impondo-lhes que façam omeletes sem ovos, que giram os seus sentimentos (só porque são adultos e têm a obrigação de ter treinado a sua inteligência emocional!) de acordo com a má educação de muitos alunos.

O descontentamento generalizado dos Professores da minha idade leva a que, num mísero intervalo de 10 minutos entre aulas, o tema das conversas seja sempre a nossa angústia, a nossa impotência perante a realidade do nosso dia-a-dia.

A nossa força encontramo-la uns nos outros e nos desabafos que trocamos.

A senhora ministra por acaso alguma vez viveu a realidade de uma escola nos moldes em que ela se encontra hoje?

Não pode imaginar como reagiria, porque muitas vezes os nossos dias são perfeitamente surreais.

No meio de tudo isto, como fica a nossa família? Sim, senhora ministra, porque nós também a temos.

É indescritível a sensação que se tem quando se dá tudo e não se recebe nada em troca.

Senhora Ministra: se tem alguma sensibilidade, por amor de Deus, inverta este estado de coisas, a bem da sanidade mental de muitos dos Professores.

Quando a senhora ministra foi aluna não respeitava os seus professores?

É que toda esta situação actual tem muito a ver com atropelos e desrespeito que se tem pela liberdade dos outros.

Edite um manual que ensine as pessoas a respeitarem-se e não faça publicar um estatuto que, conhecendo nós, Professores, a realidade actual, apenas vai aumentar a nossa impotência perante situações de indisciplina e o nosso stress.

Sei que não lerá este desabafo, mas creia que fiz os possíveis por retratar fielmente o estado de alma de milhares de Professores em Portugal.

Os profissionais de qualquer sector de actividade querem-se motivados para serem produtivos.

Temo que a produtividade dos Professores atinja níveis indesejáveis, muito por culpa de todas as injustiças, humilhações, desrespeito de que temos sido alvo, não só pelos alunos e suas famílias, mas também por quem teria a obrigação de nos proteger e nos proporcionar um bom ambiente de trabalho.

Para terminar este meu desabafo, peço apenas que não façam o país acreditar que situações de indisciplina coma as que relatei ou estados de alma como os que referi são pontuais.

NÃO SÃO e nós, Professores de todo o Portugal, que vivemos esta realidade todos os dias, sabemos bem que elas são recorrentes e perversas para o ensino e para o país do futuro no qual espero ainda participar.

  

Maria de Fátima Portugal (mfatimaportugal@clix.pt)

   

Escrito por Olinda

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