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Escrito por Selma Vedor Fernandes | 0 comentário(s)
http://sol.sapo.pt/blogs/olindagil/archive/2008/07/23/A-HI
Como os ciganos andam tão falados na actualidade resolvi investigar um pouco da sua História.
Texto adaptado de Introdução à história dos ciganos de Denize Carolina Auricchio Alvarenga da Silva, Historiadora e Educadora
Não podemos lidar com a trajectória cigana da mesma forma com que lidamos com o percurso de outros povos que possuem documentos e registos escritos pelos próprios. A sua história é-nos contada a partir do contacto com as outras sociedades.
Os interessados na reconstrução da sua história usaram, principalmente, acervos de arquivos oficiais de locais por onde eles passaram. Alguns utilizaram-se do contacto no quotidiano e da história oral como Maria de Lourdes Sant’ Ana que conviveu durante dois anos em Campinas com seus habitantes Ciganos e Alexandre Mello Moraes Filho e seus colaboradores do Rio de Janeiro.
Lendas e Hipóteses sobre as origens
Para uns, eles seriam de origem indiana, outros acreditam que as origens estejam nos egípcios. Não faltaram também hipóteses de que teriam vindo de algum outro lugar da Ásia como a Tartária, a Silícia, a Mesopotâmia, a Arménia, o Cáucaso, a Fenícia ou a Assíria. Alguns deram crédito às hipóteses de serem europeus de regiões afastadas da Hungria, Turquia, Grécia, Alemanha, Boémia ou Espanha (num misto de mouros e judeus), ou mesmo de africanos de outras regiões (que não o Egipto) como a Tunísia. Mas através de pesquisas estas hipóteses foram sendo descartadas e delas apenas duas continuaram sendo examinadas pelos ciganólogos: a origem egípcia e a indiana.
Ao longo das suas andanças seculares os ciganos incorporaram culturas de diversos países, o que dificulta enormemente os estudos que tentam reconstruir sua origem e dispersão pelo mundo.
Ciganos e alguns estudiosos, recorreram à Bíblia para explicar as suas origens; definiram-se como descendentes de Caim “Sela, de seu lado deu à luz Tubal Caim, o pai de todos aqueles que trabalham o cobre e o ferro” (Genesis, capítulo 4,versículo 22). Aplicou-se também um texto de Ezequiel (capítulo 30, versículo 23) “Dispersarei os egípcios entre as nações, eu os disseminarei em diversos países”, este último trecho foi associado, pois eles eram conhecidos como egípcios quando chegaram à Europa.
Outras versões ainda resistiram ao tempo como a descendência de Caim e por isso o castigo de vagar pelo mundo, a hipótese de terem sido os fabricantes dos pregos que crucificaram Jesus, ou que teriam roubado o quarto prego tornando assim mais dolorosa a pena dele. E ainda que eles seriam os responsáveis pela segurança de Jesus, mas não puderam impedir que o levassem pois estavam bêbados. Há também a teoria que antes da Natividade os egípcios teriam recusado hospitalidade à Santa Família e como punição seus dependentes foram condenados a levar uma vida errante.
Apenas no século XVIII se começou a discutir o assunto com mais seriedade e os linguistas apontaram indícios mais palpáveis na origem indiana em 1753 quando se comparou o idioma romani com o sânscrito, mais precisamente o hindi que é uma de suas derivações.
A partir de análises comparativas dos seus costumes e linguagem com outros de diferentes povos, os estudiosos foram apontando datas aproximadas da sua presença nos locais onde passaram um tempo considerável e adquiriram parte de sua bagagem cultural.
Ainda há divergência entre pesquisadores da ciganologia, mas os estudos mais recentes apontam para a origem indiana.
Ao chegarem a Europa diziam ter vindo do Egipto condenados por Deus a viverem desterrados devido ao pecado de seus antepassados de se negarem a acolher a Virgem Maria e seu filho. Mais tarde verificou-se que não eram originários do Egipto, mas já estavam conhecidos popularmente como egípcios, apesar de não saberem informar onde ficava essa região. Também não é provado que a denominação de egípcios tenha vindo dos ciganos, pode ter sido uma definição dos europeus para explicá-los, baseando-se na escritura de Ezequiel que fala da dispersão dos egípcios. Outra evidência é a falta de elementos egípcios no dialecto cigano.
Comparando-se a língua, o tipo físico e algumas crenças religiosas delineia-se uma trilha geográfica que permite localizar os ciganos na Índia. Mas a região exacta ainda não está definida, acredita-se que teriam vindo Sind, Punjab ou de outro ponto.
Outro estudo foi feito a respeito de características físicas e relatos dos caracteres dos ciganos comparando com os hindus e as principais semelhanças são o rosto comprido e estreito na altura dos pómulos, cabelos e olhos negros, pele bronzeada, nariz um pouco agudo, boca pequena, estatura variando de regular a alta, corpo robusto e algo que apesar de não ser físico era notável: a agilidade.
A Dispersâo - Uma História de Perseguição e Sofrimento
Infelizmente pouco sabemos a respeito dos ciganos que, sempre, em grupos numerosos vêm, há tantos séculos, penetrando em diversos territórios pelo mundo.
Alcançaram os Balcãs nos primeiros anos do século XIV e depois de um período de cem anos já estavam espalhados por toda a Europa. O surgimento desses errantes na Europa coincide com uma época de perturbações sociais e intenso movimento nas estradas.
Independentemente da precisão da entrada dos ciganos na Europa sabe-se que o carácter misterioso deles transformou a curiosidade inicial em hostilidade devido aos seus hábitos muito diferenciados. Eram considerados inimigos da Igreja que condenava suas práticas sobrenaturais como a cartomancia e a leitura das mãos. A partir do século XV esses ciganos migraram também para a Europa Ocidental, onde quase sempre afirmavam que sua terra de origem era o Pequeno Egipto, por isso foram denominados egípcios, egitano, gipsy entre outros.
Alguns grupos apresentaram-se como gregos e atsinganos e ficam conhecidos com grecianos na Espanha, ciganos em Portugal e Zingaros na Itália. Na Holanda, a partir do século XVI, utiliza-se a denominação heiden, que significa pagão.
Na França também foram chamados de tsi – ganes, manouches, romaniche e boémiens.
Distribuíram-se por várias zonas da Europa, mas as razões históricas que levaram ao seu nomadismo devem-se essencialmente à sua difícil integração social. Devido ao tom escuro da sua pele, eram vistos nas terras aonde chegavam pelos gadje (estrangeiros em romani) como malditos ou enviados do demónio. Também pelo facto de alimentarem práticas de quiromancia e adivinhação fez com que fossem repudiados pela Igreja Católica e pelas diferentes religiões cristãs.
Os preconceitos e a hostilidade geraram diversos tipos de perseguições. Na Europa, a perseguição aos ciganos não se fez esperar. O Estado que viu no seu nomadismo uma ameaça social, mais propriamente através da Inquisição, desencadeou os seus mecanismos de perseguição.
Os ciganos foram proibidos de usarem os seus trajes típicos, cujas cores berrantes e gosto extravagante fugiam à norma social, de falarem a sua língua, de viajarem, de exercerem os seus ofícios tradicionais ou até mesmo de se casarem com pessoas do mesmo grupo étnico. Isto fez com que os traços fisionómicos dos ciganos se alterassem, e por isso não é hoje invulgar encontrar ciganos de olhos claros e cabelo louro.
Em alguns países foram mesmo reduzidos à escravidão: na Roménia, os escravos ciganos só foram libertados em meados do séc. XIX, através da apresentação de um projecto resultado de uma campanha de libertação apresentado a Assembleia e em 1855 libertaram-se os duzentos mil ciganos feitos escravos pelos senhores moldo-valáquios, outros pertenciam ao Estado e ao clero.
Também foram escravos na Hungria e na Transilvânia sob as acusações de roubo, antropofagia e outras violações da lei. Na Boémia os ciganos tinham a orelha esquerda cortada se aparecessem na região e lá também foram acusados de canibalismo.
Em períodos mais recentes, juntamente com os judeus, prevê-se que talvez cerca de meio milhão tenha perecido no Holocausto. Os seus cavalos foram mortos a tiro, os seus nomes alterados (daí que não seja invulgar encontrar ciganos com nomes dos gadje) e as suas mulheres foram esterilizadas. Os seus filhos foram brutalmente retirados às suas famílias e entregues a famílias não-ciganas.
Na Hungria e Pensilvânia sob pretexto da antropofagia foram esquartejados e enterrados vivos nos pântanos.
Na Sérvia também foram mantidos escravos até meados do século XIX e a sua caça era feita com muita crueldade. Deportações, torturas e matanças ocorreram em vários pontos desse país.
Hordas de ciganos vindos dos Pirinéus chegam a Espanha banidos dos países onde já tinham passado. Foi um período de paz durante o reinado de Carlos III que os utilizou nas artes, mas os governos posteriores promoveram-lhes perseguições, tirando-lhes os seus empregos e privilégios.
Numerosos ciganos emigraram para Portugal, indo mais tarde alimentar as chamas da fogueira da Inquisição de D. João II que promulgou leis de punição. Documentos atestam que chegaram à Inglaterra por volta de 1430 e logo se espalharam pelas Ilhas Britânicas, País de Gales, Irlanda e Escócia, onde também foram perseguidos e em 1563 as autoridades ordenam que abandonem o país em três meses sob pena de morte.
Acreditando que os ciganos vinham do Egipto, os ingleses chamaram-nos de "gypsies". Trabalhavam como menestréis e mercenários, ferreiros, artistas, e damas de companhia.
Na Espanha um decreto de 1449 ordena o desterro de todos os que não tenham ofício reconhecido, nos séculos XVI e XVII são perseguidos e torturados para confessarem seus crimes. Em 1663 Felipe IV os proíbe de se reunirem, de usarem o seu idioma, as suas roupas e as suas danças. O objectivo era a desculturalização e a desintegração como grupo.
Até que em 1783 sob o reinado de Carlos II se fez uma política mais favorável e foram, considerados neo-castelhanos.
Depois de atravessarem a Pérsia e viverem durante séculos no Império Bizantino, foram para o norte no séc. XIV. Portugal foi um dos países que deportou muitos ciganos para as suas colónias, neste caso África e Brasil.
No século XVIII, os ciganos são o avesso do ideal social da época, o século das luzes, que honra o trabalho.
No final do séc. XIX houve uma terceira migração de ciganos do leste Europeu para os EUA. Sem pátria, num mundo onde tudo muda a uma velocidade alucinante, o destino previsto para os ciganos é, muitas vezes, sombrio.
Após a Segunda Guerra Mundial, muitos ciganos das áreas rurais da Eslováquia foram forçados pelos governos a trabalhar nas fábricas da Morávia e da Boémia, as regiões centrais, mais industrializadas, do território checo. Porém, em 1989, com a Revolução de Veludo e o fim do comunismo no país, os ciganos foram os primeiros a perder os seus empregos, até então garantidos por um regime que pregava a igualdade e homogenia social.
É verdade que existe uma pequena e assimilada elite intelectual cigana, mas a maioria dos ciganos da Europa Central ainda vivem em esquálidos cortiços das grandes cidades. Junte-se a isso as perspectivas económicas sombrias, um surto de ataques neonazis e o fascínio que a prosperidade ocidental exerce e temos um panorama desolador da região do mundo que mais ciganos alberga.
O resultado é que milhares de ciganos emigram para países ocidentais, onde trabalham ilegalmente, pedem esmola ou buscam asilo político. Estima-se que hoje existam 10 milhões de ciganos, 60% vivendo na Europa Oriental. A Roménia com 2,5 milhões de ciganos abriga a maior concentração mundial.
Em vários países europeus e nos outros continentes para onde emigraram vivem populações flutuantes em que se atribui origem nómada, mas com marcas culturais bem definidas. As denominações variam conforme o lugar que estão.
Mesmo possuindo uma só origem, o povo cigano, durante perseguições e injustiças ao longo dos séculos, tentam conservar sua cultura e tradição inalteradas até os dias de hoje.
Uma prova disto é o romani, o idioma universal cigano falado por todos os clãs no mundo. Actualmente, entre dezenas de grupos ciganos, os que predominam são os seguintes:
Grupo Kalon – falam o calon, são originários do Egipto; durante séculos situaram-se na Península Ibérica (Portugal e Espanha) e espalharam-se pelos outros países, inclusive pela América do Sul, deportados ou migrantes. Os Kalons, em algumas situações, tiveram que ocultar a sua origem, criando um dialecto próprio, extraído da língua regional. O nomadismo é maior entre os desse grupo.
Os Rom ou Roma falam a língua romani e estão divididos em vários sub grupos com denominações próprias como os Matchuaia (originários da Iugoslávia), Lovara e Churara (Turquia), Moldovano (originários da Rússia), Kalderash (originários da Roménia) Marcovitch (Sérvia).
Os Sinti falam a língua sintó e são mais encontrados na Alemanha, Itália e França, onde também são chamados Manouche. Fazem parte desta divisão as famílias Valshtiké, Estrekárja e Aachkane todas francesas.
Os Ciganos, ao contrário dos judeus, nunca demonstraram o desejo de ter o seu próprio país, assumindo-se párias e apátridas. Nas palavras de Ronald Lee, escritor cigano nascido no Canadá, "a pátria dos roma é onde estão os meus pés".
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