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Mas quem é o Dr. Nelson Vilela?
Todos somos produto de uma vida, somos um produto da nossa historicidade, do nosso contexto social, as escolhas que teremos de fazer serão um produto histórico. As ideias não surgem do nada, como pensaram algumas tradições metafísicas, elas são aquilo que nos foram deixando aqueles que connosco contactaram. Vou fazer alguns artigos de homenagem aos grandes professores que me influenciaram nesta minha caminhada.
O Professor Nelson Vilela é aquele a quem devo o conhecimento de Torga e de Fernando Pessoa. Foi o único Professor-Poeta que tive. Nos anos 80, era o nosso Professor de Português e de Literatura Infantil na Escola do Magistério Primário de Braga onde aprendíamos o amor à poesia e aos nossos poetas.

Falava do telurismo de Torga que é essencialmente transmontano e esse Trás-os-Montes da sua alma, entrava nas aulas de Português e nas nossas cabecinhas ávidas.
As aulas eram alegres, entre gramática e figuras de estilo, poesia e prosa, o latim e o grego na explicação do português, vinha uma asneira, e o riso do professor fazia-se ouvir várias vezes, umas gargalhadas sãs, intercaladas com comentários jocosos e brincalhões que utilizavam expressões transmontanas típicas que nunca tínhamos ouvido:
“- Uma semana transcorrida e o trabalho ainda não foi feito?”
“- Ai moça, que trabalho mal-amanhado tu aqui tens.”
“- Tu sim, és a mais desempenada, ora bota aí a leitura do teu trabalho para os outros escutarem.”
“- Enxurradas de asneiras nessa resposta, ó minha Nossa Senhora, dai-lhes juízo!”
“- Bem hajam por terem positiva no teste!”
Verbos como botar, embrenhar, afoitar, esconjurar, ensandecer, acudir, zombar, perecer, ensebar, cismar, entraram no nosso vocabulário e enriqueceram-no um pouco mais.
Recordo com saudade estes tempos em que todos ambicionávamos o conhecimento que nos tornasse bons professores como ele, lembras-te Fátima? Lembras-te Esmeralda?

MAR PORTUGUÊS --O MOSTRENGO -mensagem de "O SAL E AS LÁGRIMAS " NELSON VILELA
E Disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tetos negros do fim do mundo?
E o homem do leme disse, tremendo:
El Rei D.João Segundo»
O Mostrengo,
Depois que nasceu o Cravo,
Na madrugada a dealbar,
Ergueu-se de novo e com firmeza
Rodou, rodou,
E entrou a sereiar:
-Queres amizar comigo?
Há outro ouro, outra grandeza,
Vem fruir, vamos lupanar-
E rodou, rodou sem tremer,
Três vezes rodou
Para convencer, para confirmar:
_Vê, já baixas-te as velas
E fendes-te as quilhas
Que el Rei D.João Segundo
Mandou semear.
Vem comigo, dou-te outras maravilhas
Seduziu o Mostrengo, de novo a chiar.
-Arrenego-te, Mostrengo!
Aqui onde estou, sou um povo verdadeiro
Que, com honra e sangue,
Já lavou por inteiro,
O sangue todo que derramou.
Calou-se o Mostrengo do fim do mundo
Á voz do povo que apertou o leme
De El Rei D.João Segundo
E mais tarde foi professor de Português da minha filha, na Escola André Soares. Que alegria e que orgulho tive em saber que uma vez mais a mensagem daquele homem iria ser absorvida pela pequena mente em formação que era a minha petiza. Numa entrevista li que o poeta não teve tempo de divulgar os seus livros mas que a compensar, ajudou a burilar cabeças para darem bons poetas. E assim foi, e por isso esta homenagem.
Foi sempre um professor justo, amigo e sobretudo modesto com a sua sabedoria.
Nunca esqueci este grande mestre e o seu exemplo fez de mim uma pessoa melhor.
Obrigada Professor Nelson!
Nelson Vilela, nasceu em Vilarinho da Samardã, em 1933 e foi o oitavo filho de uma família numerosa de 14 irmãos. Cursou Teologia no Seminário de Vila Real. Aos 18 anos publicou o seu primeiro livro de poesia "Saudade", com autorização do Bispo D. António Valente da Fonseca que por ele nutria muito carinho e o encorajamento do ilustre filólogo Monsenhor Ângelo do Carmo Minhava. Que do Nelson fez saber: " Homem de raras qualidades, mas muito modesto, podia, se outro fora o seu temperamento, impor-se no arraial das letras..." Em Portugal só quem for aventureiro é que trepa...
Nunca tendo exercido qualquer ónus eclesiástico, pediu e obteve dispensa desse múnus e dedicou-se ao Ensino, após se ter licenciado em Filologia pela Universidade do Porto.
Leccionou em Mondim de Basto, Nova Lisboa, Évora, Alcácer do Sal, Chaves e Braga. Foi formador, orientador e avaliador de Professores. Leccionou em Évora no Colégio Nuno Álvares, em Alcácer do Sal no Externato Dr. José Gentil, no Externato Nossa Senhora da Graça Mondim de Basto, no Liceu Nacional de Nova Lisboa, no Liceu Nacional de Chaves e nas Escolas do Magistério de Chaves e de Braga.
Leccionou também na Escola André Soares Braga. A sua dedicação ao ensino deixou para trás a sua actividade literária. Vive em Braga, mas sempre a sonhar com as raízes. Pertence à Associação dos Autores de Braga e já fez parte da Direcção: Tem feito várias palestras sobre assuntos literários.
OBRAS: Saudade (poesia), Asas de Espuma (poesia), Inquietação (poesia), Mar e Sombra (poesia), Pedaços do meu sonho (poesia), Regresso (poesia), Sempre em Caminho (poesia), Livro de Carla (Infantil prosa e verso), Linguagem Humana (prosa), Viagem pela poesia portuguesa (antologia), Sobre a Terra e Sobre o Mar (teatro), O Sal e as Lágrimas (poesia) e Entre urgueiras e carqueijas (contos).
In i volume do Dicionário dos mais ilustres Trasmontanos e Alto Durienses, coordenado por Barroso da Fonte.
" E orgulho tenho de nascer assim
Podem rufar tambores, arrais e viras
É de lá que sou... foi de lá que vim."
In Sempre em Caminho, de Nelson Vilela